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Neusa Borges - a honestidade contra o preconceito!
Imagine que o rio fosse uma pessoa correndo para os braços do seu futuro profissional e/ou pessoal – o mar. Após caminhos tortuosos, com pedras, poluição, afluentes indesejáveis e quedas de imensas cascatas, enfim chegaria à foz para encontrar a sua alma gêmea – um leito salgado.
Essa é a impressão que nos passa Neusa Maria da Silva Borges (foto), atriz renomada, ao narrar sua trajetória profissional para o nosso site. Quase nada é doce em sua vida, senão ela própria – um rio de sinceridade e honestidade. "Lavei roupa pra fora e já fui empregada doméstica", nos conta. Não perca essa entrevista.
Neuza é filha do paulista Antônio Borges e da catarinense Aristônia Borges. Atualmente, não é casada, mas tem duas filhas, de 27 e 29 anos, respectivamente. Ela nasceu em Florianópolis, Santa Catarina, no dia 8 de março de.... "O ano em que nasci, prefiro não revelar", diz, aos risos, justificando que não gosta de números.
Nossa entrevistada não nasceu em berço de ouro: é a mais velha de uma família de oito irmãos (quatro homens e quatro mulheres). "Fui criada num sítio em São Paulo. Tive uma infância maravilhosa. Já subi muito em árvores. Já matei muita cobra, embora hoje tenha pavor desse bicho. Tive tudo o que hoje não existe mais na infância de lúdico".
Ela ressalta que a maior riqueza que seus pais lhes deixaram foi educação. "E essa educação é que eu passo para as minhas filhas e neto. Fui muito bem educada, graças a Deus". Neuza lembra que, profissionalmente, batalhou muito até alcançar o sucesso. Foi lavadeira e empregada doméstica, enfim, batalhou muito para estudar, e graduou-se em Educação Física.
Não obstante, começou a carreira artística amadora aos oito anos. "Tudo começou na igreja. Fazia parte de um coral e sempre fui apaixonada por música. Depois fui para o teatro. Aos 19 anos, por exemplo, antes de ser atriz profissional, já cantava, dançava, fazia apresentações de folclore".
Preconceitos – Neusa Borges diz que sair do amadorismo para o profissionalismo não foi fácil. "A família não apoiou muito. Antes, o meio era associado à promiscuidade e o artista não era visto com bons olhos. Mas eu persisti no meu sonho. Acredito que todo mundo veio à vida com uma missão. E quando você se propõe a algo, você luta e consegue".
Queria ser cantora como Emilinha Borba, influenciada pelas novelas de rádio. "Quanto a uma possível influência, acho que posso ter sido influenciada por uma tia minha que fugiu de casa para ir ao circo. Ela, na verdade, foi uma segunda mãe para mim". Em São Paulo, começou como crooner de orquestra, em casas noturnas. Trabalhou com grandes maestros como Clóvis Lima e Salgado Filho, sempre cantando e dançando.
Sua estreia na televisão foi na telenovela "Venha ver o sol na estrada", com Márcia de Windsor, na TV Record, na década de 1960. E, no começo de carreira, atuou em Beto Rockfeller, na extinta TV Tupi. "Nas telenovelas brasileiras que trabalhei, destaco Escrava Isaura, Dancin' Days e A Indomada", avisa.
Neuza Borges diz que no inicio foi difícil e hoje ainda o é, principalmente por causa do preconceito racial. "O negro, infelizmente, sofre muito preconceito no Brasil. Estamos sempre em segundo lugar. Acho que os negros deviam lutar para conseguir mais espaço". No entanto, diz que não tem mais planos profissionalmente a longo prazo. "Cheguei numa idade em que quero sombra e água fresca. Já tenho 58 anos de carreira".
Mas protesta: "O negro não é valorizado. Só para se ter uma ideia, de 80 atores que são escalados para trabalhar numa novela, apenas um é negro, sendo que, na maioria das vezes, o papel destinado para esse ator não tem maior destaque. Isso também acontece na moda, isto é, para cada dez modelos desfilando na passarela, apenas uma é negra".
Não assiste novela – Neusa Borges estará na próxima novela das nove da Rede Globo, cujo título provisório é "África", de Glória Perez. "Depois disso não tenho maiores planos. Quero me aposentar. Artista aposentado sofre. Mas hoje eu posso dizer que trabalho de dia para comer à noite. Artista sofre no Brasil. Ainda mais negro, que não é tão reconhecido".
Ela diz que passa o dia todo gravando. "Não tenho vida própria. Chego a gravar oito capítulos por semana, cada um com mais de dez páginas. A idade vai chegando e o fôlego já não é mais o mesmo. Só quero pagar minhas contas e comer".
Neuza não costuma assistir novelas. "Só vejo os primeiros capítulos para pegar a linha do personagem. Prefiro aproveitar o tempo livre para ler um bom livro. Imagina, decorar texto e ainda ter que assistir novela. Não dá, não é? É muito trabalho. Não sobra tempo".
Vale lembrar que nossa entrevistada atuou no cinema em produções nacionais e internacionais, por diversas vezes, sendo premiada como melhor atriz no filme nigeriano "A Deusa Negra", uma produção Brasil/Nigéria, dirigido pelo diretor Olá Balogum. Recentemente participou da novela "Araguaia", da Globo, como catadora de papel e também do filme "As mães de Chico Xavier", dirigido por Glauber Filho e Halder Gomes, no final de 2010.
Ela ama os fãs porque "sem eles não somos ninguém". Quanto à convivência com os colegas, de um modo geral, não é de andar na casa de ninguém. "Não gosto muito de intimidade. Também não sou mosca de padaria para estar todo dia em revista. No trabalho vivemos como uma família, mas, depois que acaba, cada um vai para seu canto. Pra ser sincera, não sou de medir palavras, nem fingir que gosto de alguém só para agradar. Quando não gosto não sou de bajular. Talvez, por isso, não goste de amizade de oi...".
Atores ruins – Neusa Borges diz que os elencos atuais não são dos melhores. "Antigamente, os temas também eram mais elaborados. Antes existia a Janet Clair. Hoje, felizmente, temos grandes autores, a exemplo de Glória Perez, que, na minha opinião, é sensacional e escreve bons temas. A produção, também, no momento de escolher as atrizes para atuar, pega "as indicadas". Hoje não precisa ter talento, basta uma cara bonita e pronto. O Big Brother Brasil está aí pra provar isso. A mídia te faz", critica.
Mas ressalta: "O teatro ainda consegue se segurar, se sustentar pelos próprios artistas. Só não chega às produções milionárias dos EUA. Lá você faz sua produção e consegue se sustentar. Aqui não, principalmente se você for coadjuvante. Hoje em dia quem ganha mais é quem produz. A qualidade profissional também não é mais tão exigente como antigamente. Antes você estudava para chegar lá, hoje você chega lá para depois estudar".
Já aconteceu alguma história engraçada que te marcou na carreira? "Teve uma peça em que eu troquei o fim pelo começo. Tivemos que fechar as cortinas. Foi bem engraçado mesmo. Na TV, como não gosto de protagonizar cenas de velório, já paguei alguns "micos". Em 1997, na novela "A Indomada", por exemplo, tinha uma cena em que eu tinha que ficar dentro de um caixão. Passei muito mal. Foi uma semana para tentar convencer a produção que não entrava no caixão. Nossa, caixão e cobra, estou fora".
E a Neusa com a família e amigos, como é? "Ah, sou do tipo mãezona, sabe. Gosto de ficar com a família. Gosto de cozinhar, de arrumar a casa. Nunca precisei de empregada doméstica. Na minha casa, faço tudo. Gosto de tudo limpo e bem organizado. Não sou atriz (risos). Sou excelente dona de casa. Como uma boa pisciana gosto de ajudar a todos que precisem de mim. Adoro viajar. Curtir a vida com minha família e amigos. Vim ao mundo para ser feliz e viver a vida. A minha família é grande, então qualquer festa lota a casa. Nos finais de semana também adoro curtir minhas filhas, meus netos. Gosto de viajar junto com eles. Amo a minha família".
Hair – Nossa entrevistada conta que escolheu a Bahia para morar por paixão, que começou em 1969, época em que estava contracenando na peça "Hair". Em novembro deste ano, inclusive, deve receber o título de cidadã baiana. O projeto foi proposto pelo deputado estadual Bira Côroa (PT) e já foi aprovado pela Assembleia Legislativa da Bahia. "A iniciativa me deixa muito honrosa, porque amo a Bahia".
E por falar em "Hair", o musical foi um sucesso estrondoso na época também no Brasil. A peça fez sucesso na Broadway e foi produzida no Brasil menos de um ano após a assinatura do Ato Institucional nº 5, que instaurou a fase mais dura do regime militar, com cassações de direitos políticos em massa, prisão e torturas de adversários.
A iniciativa, ousada para a época, deveu-se a Ademar Guerra, responsável por várias realizações pioneiras do teatro brasileiro e que vinha de uma temporada exitosa com a polêmica peça Marat/Sade, de Peter Brook. Ademar Guerra e o produtor Altair Lima tiveram que vencer várias dificuldades. Primeiro, a descrença de empresários teatrais de que era possível montar um musical do porte de Hair no Brasil. Depois de vencida esta resistência, veio outro problema: a censura.
A montagem original era repleta de cenas em que os atores apareciam nus, o que desagradou a censura. Seguiu-se uma penosa negociação e, ao final, os censores concordaram em que a nudez dos atores seria mostrada apenas uma única vez na peça, em cena com apenas um minuto de duração e na qual os atores deveriam permanecer absolutamente imóveis.
Premiações – O êxito de "Hair" foi tão impressionante que recebeu um prêmio dos próprios autores como sendo a melhor montagem no mundo todo. Naquele ano, Neuza Borges foi eleita atriz revelação. Durante quatro anos, emendou novos sucessos como "Capital Federal", "Deus lhe pague", "Teatro de Cordel" e "Ópera do Malandro", entre outras. Durante aquele período foi endeusada pela crítica e acumulou os mais variados prêmios pelas interpretações, a saber:
• 1992 Televisão: Melhor Atriz Coadjuvante Troféu APCAD e Corpo e Alma Vencedora
• 1997 Melhor Atriz Coadjuvante Prêmio Contigo A Indomada Vencedora
• 2005 Melhor Atriz Coadjuvante Diploma Comigo Ninguém Pode América Vencedora
• 2008 Melhor Atriz Coadjuvante Prêmio Qualidade Brasil Polaróides Urbanas Indicada
• 2009 Melhor Atriz Negra Top Empreendedor Caminho das Índias Vencedora
Neuza Borges afirma que já se decepcionou muito com a justiça no Brasil. "Para mim ela é apenas uma utopia. A lei hoje é financeira". Quando está na Bahia, torce pelo Bahia. "Mas quando estou em São Paulo, torço pelo Vasco", diz, aos risos.
Gosta muito de MPB. "Algumas músicas de hoje não são muito boas de se escutar, mas posso dizer que amo o grupo Revelação, adoro de paixão a Margareth Menezes, e Carlinhos Brow. Só não gosto desse monopólio do Axé na Bahia. O estado tem muitos artistas bons, a exemplo de Luiz Caldas, Baby Consuelo, Sara Jane, Simone Moreno, Gerônimo, entre tantos outros nomes que, infelizmente, são esquecidos. As músicas não mudam nem mesmo no carnaval", critica. Bem, então vamos ouvir um clássico de Baby Consuelo de 1985: Um auê com você
No cinema, ela diz que o inesquecível "E o vento levou", de Victor Fleming, é o preferido. "Sou viciada em filme, mas não gosto de cinema. Antigamente, quando ia ao cinema, eu levava rabanete para comer, dispensava a pipoca. Hoje, nos finais de semana gosto de curtir lugares ao ar livre". Os livros que ela mais gosta são os da religião espírita. "Amo os livros de Zíbia Gasparetto".
Tem algum poema predileto? "Bom, quando eu era criança fazia até alguns poemas, mas depois que conheci Elisa Lucinda, me apaixonei pelas suas poesias e fico até com vergonha de declamar. Sou bem romântica mesmo, admito". Eis aqui um poema de Elisa Lucinda que selecionamos:
Cor-respondência
Remeta-me
os dedos
em vez de cartas de amor
que nunca escreves
que nunca recebo.
Passeiam em mim estas tardes
que parecem repetir
o amor bem feito
que você tinha mania de fazer comigo.
Não sei amigo
se era seu jeito
ou de propósito
mas era bom
sempre bom
e assanhava as tardes
Refaça o verso
que mantinha sempre tesa
a minha rima
firme
confirme
o ardor dessas jorradas
de versos que nos bolinaram os dois
a dois
Pense em mim
e me visite no correio
de pombos onde a gente se confunde
Repito:
Se meta na minha vida
outra vez meta
Remeta.
Apesar de formada em Educação Física, Neuza Borges não tem praticado nenhuma atividade para o corpo. "Hoje não curto nem caminhar. Quando era nova, praticava vôlei. Era viciada em esporte. Praticava salto, também". Ela bebe bastante cerveja. "Gosto também de pinga. Mas não tomo uísque, nem caipirinha". Seu prato predileto? "Como tudo. Sou boa de prato. Gosto também de cozinhar. Adoro fazer comida para a família. Já tive, inclusive, um restaurante no Porto da Barra". Nas pessoas, ela detesta falsidade e mentira. "Admiro a verdade. Amo quem é verdadeiro e honesto".
E o que você faria para tornar a vida melhor? "Trocaria todos os políticos de Brasília. Colocaria fogo lá igual a Roma. Se não fosse artista, eu poderia entrar na política para ajudar a diminuir a desigualdade social, mas a desonestidade é tão grande, que seria melhor não correr o risco. Essa doença da política deve pegar... Já pensei, confesso, até em me candidatar, mas meu pavor é tão grande dessa desonestidade que tenho medo de ser contaminada. Não teria mesmo estômago pra isso. Hoje em dia deve ser vergonhoso você falar que é da área política".
E o que você gostaria de dizer para encerrar nossa entrevista? "Não gosto do título de atriz global. Gosto de ser admirada e reconhecida pelo meu profissionalismo. Sou Neuza Borges e não atriz global. Seria a mesma atriz se trabalhasse em outra emissora, como o fui. Não nasci em berço de ouro, nem com os olhos azuis, nem tampouco sou filhinha de papai. Como já disse, trabalho de dia para comer à noite".
Como se percebe, a água do mar ainda salga a vida da nossa entrevistada. Após 70 anos de percurso – e 58 de carreira –, o suor da alvorada é a única garantia do pão no crepúsculo. Enquanto nesta fase da vida desembargadores e ministros, dentre outros, se aposentam para descanso em intermináveis cruzeiros, a atriz ainda busca o peixe no fundo do mar. Mas, e daí? Ela tem, como poucos, merecido reconhecimento público. Enfim, não tem como não ser feliz!
Fonte: Assessoria da ADEP-BA
Publicada em: 26.08.2011
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