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Célia Padilha - uma mulher de espírito positivo!
Fé, determinação, força e amor ao próximo. Esse é o lema de Célia Padilha. Apesar de uma história de vida na qual podemos quase tocar, em meio às suas palavras, o drama, as dificuldades e os desafios enfrentados, as virtudes elencadas acima dizem um pouco do que se pode entender desta mulher de luta.
Toda esta resistência e coragem brotaram no seio da família, através da educação que recebeu de seus pais. "Sempre fico bastante emocionada ao falar em minha família, por ser uma pessoa a ela bastante ligada. Sou a quarta de uma família de dez irmãos: cinco homens e cinco mulheres, todas elas de personalidades fortes", comenta Célia Padilha, ressaltando a força feminina em seu lar. O pai da nossa entrevistada, já falecido, chamava-se João Quadros Nery, e, a mãe, Dolores Oliveira da Silva.
Martins, o irmão mais velho, é veterinário e advogado. Moisés, "que tem a humanidade e a presteza como características mais marcantes", como ela define, é profissional autônomo. George, "bastante brincalhão, e que tem na terra e nos esportes suas paixões", é comerciante em Mutuípe, terra natal de toda a família. Joãozinho, também comerciante e fazendeiro, mora em Santo Antônio de Jesus. Ramon, o caçula dos homens e da família, é advogado.
Entre as mulheres, a primeira que veio foi Maria Nilza, cujos apelidos carinhosos em família são "Xodó" e "Lia". Ela é formada em química industrial e também advoga. "É a mais reservada da família", diz Célia Padilha, que é a segunda entre as mulheres. Na seqüência vem Miriam, economista e também advogada. "Essa disputa as brincadeiras com George, além de ser uma pessoa extremamente sensível", acrescenta.
Selma, administradora de empresas, "é bastante forte e séria". Enfim, a caçula das mulheres é Telma, bacharela em administração hoteleira. "Ela atua na área, é pessoa sensível, de coração mole, que não deixa sua tranquilidade se abalar por pouca coisa. Aliás, como eu já disse, as mulheres da Família Nery são extremamente fortes, de personalidades marcantes, sérias e comprometidas com aquilo que acreditam", afirma.
Célia Padilha é casada com Sérgio Gomes Padilha. Sobre ele, eis a declaração: "É o ser humano mais íntegro e humano que conheci na minha vida. Solidariedade, companheirismo, presteza, inteligência, beleza, alegria, tudo isso numa pessoa só. Sérgio é o homem que Deus colocou na minha vida, a quem agradeço todos os dias, por tê-lo como marido. Com emoção, digo que a minha vida profissional e a construção daquilo que sou, enquanto mulher, mãe, chefe de família, amiga, tem uma parcela generosa do que Sérgio trouxe para mim, pois somos dois, um casal de verdade, em tudo".
Ela conceitua também seus filhos como "dádivas divinas". Lucas, o mais velho, e Juliana, "são pessoas de bem, responsáveis, estudiosas, sem preconceitos, amorosos, ligados à família". E acrescenta: "Se nós, enquanto pais, faltássemos hoje por qualquer motivo, não tenho dúvidas que eles não se desvirtuariam, pois o caráter de meus filhos, a bondade e o amor semeados, criaram raízes sólidas".
Nossa entrevistada nasceu no interior do Estado da Bahia. "Nasci numa cidade lindíssima chamada Mutuípe, terra do cacau. Na minha cidade, de povo trabalhador, tudo dá: coco, cacau, laranja, pecuária...", avisa. Ela veio ao mundo no dia 10 de novembro de 1958 e teve uma infância muito tranqüila no interior, "apesar de ser pautada na lida cotidiana que meu pai e minha mãe precisavam tocar para criar, como homens e mulheres de bem, a mim e aos meus nove irmãos".
E ressalta: "Ajudei a criar os meus irmãos menores, tomava conta da casa, mas tudo isso não era encarado como algo ruim. Na realidade, era o cotidiano das pessoas do interior que permeava as nossas vidas, de forma marcante e positiva". Célia Padilha brincou muito e era feliz com aquilo que tinha a seu dispor. "Lembro-me que, por conta das limitações do interior, eu aproveitava os retalhos de roupas cerzidas por minha mãe para fazer bonecas de pano. Como isso me dava alegria!"
Célia Padilha destaca que um ponto positivo em sua infância foi o fato de aprender, desde cedo, a respeitar os mais velhos. "Servir os mais velhos, pedir à bênção, ouvir o que era dito e recomendado. Isso, certamente, fez a diferença e se esses valores ainda hoje estivessem na formação de nossas crianças e jovens, teríamos uma sociedade melhor".
Orgulho do pai - Ela conta que seu pai, "que mal sabia ler e escrever, era uma pessoa séria, sensível, honesta e de valores morais que o levaram a ser líder político importante na cidade". Foi vereador por dois mandatos, mas isso, ressalta ela, "não lhe deu qualquer vantagem financeira". Ele foi, ainda, Juiz de Paz em Mutuípe sem qualquer remuneração, por cinco anos, visto que naquela época, para estes cargos, não havia qualquer tipo de proventos.
Uma das decisões do pai que ela muito admira, enquanto chefe de família, foi a de enviar os filhos, independentemente dos poucos recursos, para estudar em Salvador. "Quando chegava a época certa, um por um foi encaminhado à capital para dar continuidade aos estudos e todos fizeram faculdade, mesmo morando em pensionato e com restrições financeiras para nos mantermos em Salvador".
Célia lembra que seu pai teve também uma importância significativa na sua escolha pelo Direito, tanto do ponto de vista profissional quanto pessoal. "Ver aquele homem simples, rústico e de poucas letras, resolvendo conflitos em situações das mais adversas, eu ficava admirada e orgulhosa. Queria dar continuidade aos seus passos, levando o Direito e a Justiça à minha cidade. E assim me tornei a primeira mulher de Mutuípe a deter a graduação em Direito, no ano de 1985. Isso me enche de orgulho".
Como advogada, atuou em Mutuípe e região até 1989, mas precisou fixar residência em Salvador, já que os seus filhos estavam crescendo e na capital havia melhores condições educacionais. "Montei um escritório em Salvador e passei a buscar, através do concurso público, a estabilidade financeira e a realização profissional".
Satisfeita - Nossa entrevistada encontrou a Defensoria Pública no próprio escritório de advocacia, visto que este era o único espaço de assistência judiciária gratuita que funcionava em Mutuípe. "Não tenho dúvidas de que se eu continuasse advogando, encontraria dificuldades financeiras ainda maiores: fazia muita assistência judiciária gratuita e, ao mesmo tempo, tentava abraçar os problemas alheios, com fins de fazer com que o meu conhecimento jurídico garantisse a satisfação do povo sofrido de minha cidade".
Célia Padilha ingressou na Defensoria Pública do Estado no concurso público realizado no ano de 1992, e, sobre a profissão, tudo foi motivo de satisfação: "Ao longo destes quase 18 anos de Defensoria Pública, eu saio satisfeita para trabalhar todos os dias. Não vejo profissão mais bonita e essencial que a de Defensor Público".
E arremata: "Nós, defensores, ouvimos a dor do outro, enquanto pessoa. Cada indivíduo é um ser humano integral, com seus problemas, conflitos e inúmeras necessidades. E o nosso papel é o de fazer com que esta pessoa tenha, minimamente, a contemplação de suas necessidades e interesses. As expectativas que a população deposita na nossa carreira é enorme. E eu vejo, num panorama atual, que a nossa Instituição é a última fronteira para resolver esta demanda reprimida de nosso povo".
Ela lembra, porém, que sua "atuação enquanto agente do sistema de Justiça sempre foi respeitosa, cordata, mas técnica e independente sobre tudo". E avisa: "Nunca deixei de defender os interesses da população por mim assistida de forma plena, adotando todos os recursos e medidas necessários para atender aos seus interesses, respeitando as minhas compreensões técnicas".
Na Defensoria Pública da Bahia, atuou em várias áreas: cível, família, infância e adolescência, crime, curadoria especial, fazenda pública, juizados especiais e núcleos de conciliação. "A área que mais me encanta é a de família, sucessões e infância. Compreendo que a atuação extrajudicial do defensor público, na mediação de conflitos e, sobretudo, auxiliando as comunidades no processo de estruturação pacífica da vida das pessoas e dos núcleos sociais, é essencial".
Sub-defensora geral - Célia Padilha ressalta que sempre foi uma pessoa de iniciativa e que compreendia a importância do defensor público enxergar plenamente a carreira e de se fazer respeitar. Em uma determinada fase de sua atuação foi chamada a trabalhar na triagem da DPE, em Salvador, e, por conta das ações adotadas naquele espaço, "os servidores e colegas perceberam uma mudança administrativa positiva e fundamental para o bom desenvolvimento de nossas atribuições".
A partir daí, recebeu um desafio de Jânio Néri, na época defensor-geral, para coordenar as unidades de atendimento da capital. "Em que pese a antiga Lei Orgânica da Defensoria fizesse referência a esta coordenação, nada existia. A sua estruturação ocorreu a partir da minha atuação e, não tenho dúvidas, que a autonomia a mim concedida pelo Dr. Jânio Néri foi importantíssima para que se estabelecesse uma relação de respeito e de confiança dos defensores públicos nas ações de gestão desenvolvidas pela coordenação recém-criada".
Célia Padilha sempre foi uma pessoa ligada à administração, mas se posicionava para além dos grupos políticos existentes. "Para mim, a Defensoria Pública está em primeiro plano e não me furtarei em desenvolver, de forma competente e plena, o trabalho necessário para fazer da nossa instituição, A Instituição. Colaborei e continuarei colaborando com qualquer que seja o/a gestor/a que queira, dentro da linha da legalidade e da ética, fazer o melhor para a Defensoria, os defensores, os servidores e os cidadãos", avisa.
Quando se tornou sub-defensora pública geral na gestão de Hélia Barbosa, aprendeu a lidar com a administração e as suas complexidades: orçamento e execução orçamentária; a relação da DPE com os outros poderes de Estado; a tarefa de sopesar as necessidades de todos os atores da instituição e as possibilidades administrativas. "Esta época foi marcante em minha vida e fundamental para o fortalecimento da Defensoria, uma vez que a nossa instituição saía da estrutura do Executivo (Secretaria de Justiça) e passava a assumir as responsabilidades, as dores e delícias da autonomia. Foi o nosso grito de independência".
Corregedoria - Célia Padilha foi corregedora geral da DPE por um acontecimento que classifica de "não muito alegre", qual seja, a defensora pública Carmela Trocoli foi eleita para este cargo, mas, em face de problemas de saúde, pediu exoneração para tratamento médico. Como havia poucos meses de sua assunção, realizou-se uma nova eleição.
"Os membros do Conselho Superior da Defensoria Pública, à unanimidade, sugeriram e votaram no meu nome para compor a lista sêxtupla, de acordo com a legislação da época, contando com o aceite inclusive da então presidenta da ADEP/BA, Tereza Cristina. Não acredito em acasos, apesar de saber que o Divino orienta os nossos caminhos e nos dá força para agir e seguir em frente", relembra.
Célia Padilha diz que não era sua pretensão ser corregedora da DPE. "Aceitei o desafio com maestria e os frutos deste trabalho coletivo, que contou com a competência profissional e o companheirismo de Dr. Gilmar Bittencourt, que cumulava a sua atuação ordinária (Vara da Fazenda Pública e Auditoria Militar) com as atribuições desempenhadas frente à Corregedoria, gerou bons frutos".
Ela e Gilmar estruturaram e regulamentaram o estágio probatório para o cargo de Defensor Público, visitaram todas as cidades em que a Defensoria Pública tinha presença física, promoveram correição e inspeção nas carreiras e foram, ainda, co-responsáveis no processo de estruturação do Colégio Nacional de Corregedores.
Com o decurso do mandato de corregedora, optou por descansar um pouco da atuação administrativa, voltando a trabalhar enquanto órgão de execução. Deixou a administração da DPE, "mas ela não me largou", pois, invariavelmente, era procurada para auxiliar nas construções de gestão em curso, nas mais variadas searas.
ESDEP - E assim, recebeu convites de Tereza Cristina Almeida Ferreira para assumir cargos diversos em sua administração e contou com o importante apoio de colegas neste processo difícil de decisão. "Tinha sérias dúvidas em voltar para a atuação administrativa e o novo desafio à minha frente - assumir a Escola Superior da Defensoria Pública da Bahia - foi bem aceito e vencido".
Como diretora da Esdep, Célia Padilha diz que se surpreendeu com a grandiosidade do trabalho a ser desenvolvido e das múltiplas possibilidades que este órgão auxiliar pode cumprir para fazer com que a DPE fortaleça a atividade fim dos defensores públicos e, ainda, na atuação dos servidores e estagiários.
"A ESDEP vai além da realização de cursos para a formação continuada dos agentes da Defensoria Pública. Aprendi, muito rapidamente, que a relação da ESDEP precisa ser coesa com as Coordenações e com o próprio Gabinete, a fim de auxiliar com que as políticas e ações a serem implementadas reflitam a construção de um processo educacional e formativo", comenta, e enumera suas principais realizações à frente da Escola, a saber:
1. Convênio com o Judiciário;
2. Estruturação do novo modelo de atendimento;
3. Acertamentos com a SEPLAN para o desenho de uma proposta de compatibilização da estrutura administrativa da Defensoria, com a organização administrativa do Estado (territórios de identidade);
4. Curso de capacitação em gênero, raça e etnia, em parceria com o NEIM e o CEAO, para 100 professoras da rede pública estadual
5. Especialização em Direito Público do Estado para defensores, devidamente focada na atuação dessa categoria;
6. Curso sobre substâncias psicoativas;
7. Coordenação do convênio realizado pela DPE com a Fundação Cidade Mãe para a recepção e acompanhamento, na nossa instituição, de adolescente em conflito com a Lei que cumprem medida sócio-educativa de prestação de serviços à comunidade;
8. Realização de processos seletivos para estagiários de nível superior e médio, contemplando a maioria das cidades com presença da Defensoria; Convênios com várias instituições de ensino superior, nas mais diversas áreas do conhecimento, o que trouxe inúmeros profissionais e estagiários para a Defensoria.
Não obstante, Célia Padilha destaca que a maior conquista é o prédio próprio para sediar as instalações, já em reforma, de modo a melhor contemplar as necessidades dos defensores, servidores e estagiários, como também da população. "Temos um novo acervo para a biblioteca da ESDEP, com títulos variados e em quantitativo elevado, e que já se encontram em fase de cadastramento para disponibilização dos defensores, ao final das obras", complementa.
Célia Padilha está cursando sua segunda especialização, em Direito Público do Estado, fruto da parceria desenvolvida pela Escola Superior da Defensoria Pública, que beneficia cerca de 60 defensores públicos. "A minha atuação administrativa na Defensoria Pública mostrou-me a importância de ampliar os meus conhecimentos técnicos e acadêmicos na área e penso, dentro em breve, mestrado numa linha de pesquisa que enfoque gestão pública". Célia é candidata ao cargo de defensora geral da DPE da Bahia, em eleição a ser realizada em janeiro de 2011.
Célia Padilha adora filmes românticos e os épicos. Na sua estante estão "Ré", "E o Vento Levou", "O Morro dos Ventos Uivantes" e o "Conde de Monte Cristo". "No rol das estrelas do cinema, Scarlett O´hara tem a minha eterna admiração, em face da força de sua interpretação". Na literatura, gosta muito de contos, crônicas e romances. "Infelizmente, tenho me dedicado a livros de conteúdo técnico, mais voltado ao trabalho que vinha desenvolvendo frente à ESDEP".
O teatro lhe serve como "fonte de reflexão e válvula de escape às pressões do cotidiano". Gosta de musicais, comédias e peças de cunho reflexivo. "Quando tenho espaço na agenda, minha família e eu nos deslocamos para São Paulo para aproveitar daquele grande celeiro cultural. Lá eu assisti "Cats", "Hairspray", "Fantasma da Ópera" e tantas outras peças".
Com relação à poesia, ela destaca as "construções poéticas que expressem a realidade, aquilo que sentimos e vivemos". Castro Alves é o escolhido. "Ele conseguiu embutir poesia a um cenário de muitas dores e lutas. Navio Negreiro, um de seus melhores poemas, marcou muito a minha vida, desde a adolescência. É o meu predileto!".
Definitivamente, Célia está entre as pessoas que, de fato, conseguem sempre superar os obstáculos, resolver os problemas e encarar a vida de uma maneira positiva, sempre acreditando que a fé, determinação, coragem e o respeito ao próximo podem e movem montanhas.
Publicada em: 30.12.2010
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